Pela vida

É pena não podermos assistir ao nosso princípio, ao nosso crescimento, à nossa formação.
Quando tento pensar-me em criança, são tão poucas as memórias que não me reconheço em fotografias com esses poucos anos. É como se estivesse a olhar para uma criança desconhecida que me inspira carinho. Tenho vontade de lhe perguntar o que gosta de fazer, de a ver sentada nas carteiras da escola, de saber como escreve os números, as letras… Queria passar-lhe as mãos pelos cabelos quando estivessem suados, sentir a sua mãozinha em volta do meu indicador, responder às suas dúvidas e pô-la a dormir. Não sei porque penso nisso. Devo precisar de cuidar desse pirralho que hoje me assusta, me pede leite e pergunta porque não se pode tocar no Sol. Uma criança esquecida, perdida nos anos, que conserva o seu tamanho, o seu desamparo e as suas exigências próprias dessa idade. Essa criança olha-me todas as noites enquanto durmo, e os estragos das suas brincadeiras aparecem nos meus sonhos, em forma de tragédias. Está por detrás da outra que tenho vontade de pegar ao colo quando estou no jardim público.
Marta Gauiter – Tanto que eu não te disse
Desde criança esquecemos duas circunstâncias inalteráveis. Saber de onde viemos e para onde vamos quando terminar a nossa caminhada terrena.
«somos levados a substituir essa sabedoria inata, por informações transmitidas pelos adultos que nos rodeiam. Supostamente, “eles” é que sabem o que devemos ser.»
Não é de admirar que mais tarde surjam interrogações.
- Será que eu sou mesmo quem penso ser ?
Vamos crescendo fazendo de conta. Usam-se máscaras para desempenhar na perfeição os papéis que nos forem sendo atribuídos.
Será nessa realidade ilusória, que poderemos aceitar ser julgados e manipulados, deixando assim de escutar a voz do coração.
Em consequência disso corremos o risco de ignorar que temos direito a ter fragilidades, dúvidas, receios, aflições… e cresce uma ilusão de sermos obrigados a tornar grande aquele ego pequenino que existia em nós próprios.
Começamos a aprender desde que se nasce, que temos de agradar aos outros, para ser amados. É “por amor” que “eles” nos ensinam a ser perfeitos, a ter certezas e a não fracassar.
Para além do nosso ser ilimitado e eterno, somos seres limitados, imperfeitos, falíveis. Sujeitos a circunstâncias efémeras, sobre as quais é ilusório pensar que sobre elas temos um poder de controle.
Aceitando as nossas imperfeições e fraquezas, saber que foi para fazer a experiência do limite, do falhanço, da morte, que viemos a este mundo talvez se encontre o caminho da nossa verdadeira natureza.
E nessa consciência facilmente se encontrarão os bens essenciais à vivência humana. Tolerantes com os outros, valorizar e reconhecer o que cada um é capaz de oferecer. Estimular a Luz de uma fraternidade baseada no amor ao próximo, acreditando que nos recebem sem nos julgar.
Ser habituado a sonhar a criança que existe dentro de nós, olhando a vida com um sorriso aberto de esperança.
Quando tento pensar-me em criança, são tão poucas as memórias que não me reconheço em fotografias com esses poucos anos. É como se estivesse a olhar para uma criança desconhecida que me inspira carinho. Tenho vontade de lhe perguntar o que gosta de fazer, de a ver sentada nas carteiras da escola, de saber como escreve os números, as letras… Queria passar-lhe as mãos pelos cabelos quando estivessem suados, sentir a sua mãozinha em volta do meu indicador, responder às suas dúvidas e pô-la a dormir. Não sei porque penso nisso. Devo precisar de cuidar desse pirralho que hoje me assusta, me pede leite e pergunta porque não se pode tocar no Sol. Uma criança esquecida, perdida nos anos, que conserva o seu tamanho, o seu desamparo e as suas exigências próprias dessa idade. Essa criança olha-me todas as noites enquanto durmo, e os estragos das suas brincadeiras aparecem nos meus sonhos, em forma de tragédias. Está por detrás da outra que tenho vontade de pegar ao colo quando estou no jardim público.
Marta Gauiter – Tanto que eu não te disse
Desde criança esquecemos duas circunstâncias inalteráveis. Saber de onde viemos e para onde vamos quando terminar a nossa caminhada terrena.
«somos levados a substituir essa sabedoria inata, por informações transmitidas pelos adultos que nos rodeiam. Supostamente, “eles” é que sabem o que devemos ser.»
Não é de admirar que mais tarde surjam interrogações.
- Será que eu sou mesmo quem penso ser ?
Vamos crescendo fazendo de conta. Usam-se máscaras para desempenhar na perfeição os papéis que nos forem sendo atribuídos.
Será nessa realidade ilusória, que poderemos aceitar ser julgados e manipulados, deixando assim de escutar a voz do coração.
Em consequência disso corremos o risco de ignorar que temos direito a ter fragilidades, dúvidas, receios, aflições… e cresce uma ilusão de sermos obrigados a tornar grande aquele ego pequenino que existia em nós próprios.
Começamos a aprender desde que se nasce, que temos de agradar aos outros, para ser amados. É “por amor” que “eles” nos ensinam a ser perfeitos, a ter certezas e a não fracassar.
Para além do nosso ser ilimitado e eterno, somos seres limitados, imperfeitos, falíveis. Sujeitos a circunstâncias efémeras, sobre as quais é ilusório pensar que sobre elas temos um poder de controle.
Aceitando as nossas imperfeições e fraquezas, saber que foi para fazer a experiência do limite, do falhanço, da morte, que viemos a este mundo talvez se encontre o caminho da nossa verdadeira natureza.
E nessa consciência facilmente se encontrarão os bens essenciais à vivência humana. Tolerantes com os outros, valorizar e reconhecer o que cada um é capaz de oferecer. Estimular a Luz de uma fraternidade baseada no amor ao próximo, acreditando que nos recebem sem nos julgar.
Ser habituado a sonhar a criança que existe dentro de nós, olhando a vida com um sorriso aberto de esperança.
«A vida é um movimento contínuo. Um mistério que nos vai sendo revelado pelas várias formas através das quais ela se possa exprimir.
Daí que o seu evoluir seja algo de que, por muito que se explique, apenas nos podemos ir apercebendo à medida que formos lançando sementes à terra. Com amor e confiança, mas despojamento relativamente à forma como os frutos amadurecem. E atenção não só àqueles que, porque já maduros, podemos comer, mas também aos que, tendo apodrecido, há que deitar fora.»
(na interpretação de palavras escritas por Maria José da Costa Félix, nas suas crónicas “Outra porta”)

8 comments:
Também estou de acordo que quando olhamos as fotos de pequenos há qualquer coisa de ternura mas " não somos nós " depois crescemos e como é pena perdermos a inocencia de crianças ao tormarmo-nos adultos esquecemo-nos da beleza das flores, do cheiro da relva quado rebolava-mos nela, esquecemo-nos que todos tem direito á vida e um caminho a percorrer, ainda me lembro de ver as formigas o caminho até ao esconderijo com pedaços de comida, as joaninhas que pousavam nas minhas mãos, ás vezes pergunto-me que é feito de mim por onde ando, tento me encontrar mas inevitavelmente cresci
beijos
O mistério da vida só nos vai ser revelado no dia da morte. Até lá convém viver e esperar que no momento final a surpresa seja agradável.
Gostei muito de te ler. Obrigada pelas palavras que me deixaste.
dúvidas e mais dúvidas. penso que todos somos iguais, nesse aspecto.
já me senti atormentada e assustada, agora não aprofundo tanto, porque sei que nunca vou ter as respostas. vou aprendendo com os outros e vou tentando compreender-me. esta parte é difícil e às minhas memórias de infância não quero ir buscar grande coisa. aprendi a viver com essa altura da vida metida numa gaveta da qual vou tirando uns pedacinhos pequeninos de cada vez, os melhores.
do que veio a seguir, até gosto e está em prateleiras, sem portas.
e assim vou caminhando...
Vale sempre a pena vir até aqui.
Que lindo texto que nos faz reflectir.
beijinhos
sabe bem olhar esse tempo, muitas vezes julgo que me lembro de tudo e com tanto carinho
como concordo e como me fez bem ler-te,
fico a pensar e a imaginar, como se o filme rodasse neste momento
que belo texto!
beijibnhos e um abraço para ti
lena
A autora Maria de São Pedro, a Papiro Editora e a Fnac têm o prazer de convidar V.Exas. a estarem presentes para o lançamento do livro GATO PEDRA no dia 19 de Maio, pelas 19.00h na Fnac - Cascais Shopping.
reencontrar o nosso verdadeiro eu por vezes leva tempo, tantas foram as direcções para onde nos inclinaram, tantos os valores que nos foram dados como certos, isto para além dos produzidos pela imaginação.Mas cá vamos conseguindo equilibrar-nos no meio deste turbilhão e pode ser que quando o pó assentar, depois da tempestade, nos encontremos finalmente no seu centro, em acto de meditação.
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