sábado, março 25, 2006

Seres sobre a Terra


Poema do futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.

Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.


De, António Gedeão

13 comments:

Blogger Maria said...

Diz Maria Lúcia Lepecki: " a escrita é uma costura de pensamentos, bainhas bem alinhadas, pontos elegantes, vincos só nos sítios próprios. Mas nenhuma peça de costura tem só o lado de fora, e sem o avesso e o que por lá vá, não haveria bordados nem fantasias. Tal qual como na escrita, onde é preciso revirar para encontrar a arte do ponto." in "A vida íntima das palavras" .
Retirei este pequeno texto de um blog de uma jovem amiga, filha de uma grande amiga minha, que podes espreitar se te apetecer. Está nos meus links "O corpo iluminado".
Beijos e bom sábado!

sábado, março 25, 2006 12:23:00 p.m.  
Blogger BlueShell said...

Que bom poder reler. Obrigada! Deixo um abraço, BShell

domingo, março 26, 2006 12:16:00 a.m.  
Blogger Concha Pelayo/ AICA (de la Asociación Internacional de Críticos de Arte) said...

Bonitos y reposados versos.

Un beso.

domingo, março 26, 2006 12:49:00 a.m.  
Blogger saltapocinhas said...

gosto do Gedeão porque consigo entender o que ele diz...

domingo, março 26, 2006 3:04:00 p.m.  
Blogger Paulo Jorge Ribeiro said...

É tudo quanto fica... Não estaremos nós a tentar a imortalidade?

domingo, março 26, 2006 9:48:00 p.m.  
Blogger Alien David Sousa said...

SORRI.

domingo, março 26, 2006 11:17:00 p.m.  
Blogger Anna^ said...

Este poema só podia ser do Gedeão!

bjokas e uma boa semana ":o)

segunda-feira, março 27, 2006 11:06:00 a.m.  
Blogger Conceição Paulino said...

é bom reler este exercício sobre a Humanidade e seu futuro possível, evolução e registos antigos (os nossos já) e olhares sobe os mesmos.
Boa semana. Bjs e ;)

segunda-feira, março 27, 2006 11:59:00 a.m.  
Blogger Joanissima said...

Este senhor tinha uma sensibilidade imensa, de facto...

Um beijo

segunda-feira, março 27, 2006 2:45:00 p.m.  
Blogger Lúcia said...

belo poema, Luis.

segunda-feira, março 27, 2006 3:48:00 p.m.  
Blogger Concha Pelayo/ AICA (de la Asociación Internacional de Críticos de Arte) said...

Hola amigo. No había reparado en que vives en Coimbra. Me fascinó toda ella. Un abrazo.

segunda-feira, março 27, 2006 4:45:00 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Uma escolha óptima de Gedeão! Beijos.

terça-feira, março 28, 2006 6:20:00 p.m.  
Blogger ivamarle said...

magnífico o poema, como é apanágio do autor.Muito bem escolhido, parabéns!!

sexta-feira, março 31, 2006 10:36:00 p.m.  

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