Língua Portuguesa

«Poderás dizer, leitor estrangeiro, que com o Castelhano tem o idioma português muita analogia e grande cadência, mas a semelhança não é corrupção. As Línguas portuguesa e castelhana são duas irmãs que têm alguma semelhança entre si, como filhas da língua latina, mas uma e outra logra a sua própria independência e nobreza, porque nem do Português deriva o Castelhano, nem do Castelhano deriva o Português.»
(Rafael Bluteau, Prólogo a Vocabulário Português e Latino, Lisboa, 1712)
«O génio da Língua é a essência espiritual emanada dos seus vocábulos intraduzíveis, que se pode sintetizar n’uma expressão mais ou menos definida.
Na Língua Portuguesa há um certo número de palavras altamente expressivas do que a nossa sensibilidade possui de mais íntimo e característico, e, por isso, sem equivalentes nas outras línguas.
Mas nós conhecemos ainda uma célebre palavra animada pelos dois princípios religiosos que definem a alma pátria.
Não precisamos de reunir vários sentimentos comuns dos portugueses, para com eles desenharmos o seu carácter moral. Conhecemos um que o define por completo. Refiro-me à Saudade.
Analisai-a e vereis logo os elementos que a forma : desejo e lembrança, conforme Duarte Nunes de Leão; gosto e amargura segundo Garrett.
O desejo é a parte sensual e alegre da Saudade, e a lembrança representa a sua face espiritual e dolorida, porque a lembrança inclui a ausência d’uma coisa ou d’um ser amado que adquire presença espiritual em nós.
A dor espiritualisa o desejo, e o desejo, por sua vez, materializa a dor. Lembrança e desejo confundem-se, penetram-se mutuamente, animados da mesma força vital e assimiladora, e precipitam-se depois n’um sentimento novo que é a Saudade.
A Saudade pelo desejo (desejar é querer e querer é esperar), em virtude da própria natureza do desejo, é também esperança, assim como é lembrança pela dor.
Assim, o génio da nossa Língua é o dom especial que ela tem de traduzir o sentimento saudoso da Natureza animada e inanimada» .
(Teixeira de Pascoaes, Arte de Ser Português, Porto, 1915)

20 comments:
Dia de arrumações. Mexidas em "cousas" esquecidas faz encontrar peças assim.
(mau é ainda haver tanta dificuldade para alinhar texto, escolher tipo de letra certo. E, para cúmulo, não conseguir tirar de lá o align="justify"> ...)
Bem, podia ser pior.
De volta das palavras, saudade lembra-me separação, separação lembra-me dôr e amargura. Sobre a separação dizia Marguerite Yourcenar "O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo.(...)Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo. (...) Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos." (Reirado do Citador)
E ainda à volta da saudade dizia Sophia de Mello Breyner:
"Intacta memória - se eu chamasse
Uma por uma as coisas que adorei
Talvez que a minha vida regressasse
Vencida pelo amor com que a lembrei."
Beijos para ti e continua com as arrumações. Belos textos q descobres.
O teu texto recordou-me um Poema de que gosto muito e que aqui deixo, num pequeno excerto...
"...A tinta dá a aparência deslumbrante,
A luz carnal que veste os ossos do esqueleto
E em nós acende uma ilusão de vida,
Um desejo de ser quase infinito,
Um sonho de existir eternamente...
Este sonho divino que nos leva
Nas suas ígneas asas sempre abertas
No coração da noite.
Para onde vamos nós? Para onde vai
A perfeita alegria que se apaga,
E nos deixa na alma
Como um sabor a cinza?
E no silêncio que vem da serra com a lua
E passeia comigo no jardim?
E o perfume das rosas e dos lírios
Que derramam, na sombra, bem se vê,
Fosforescências brancas e vermelhas,
Quando o luar é mármore desfeito
A cair, a cair, em luminoso pó?
Cai na terra que tem defunta palidez,
Sorrisos mortos, lágrimas de neve,
Pedrinhas preciosas que cintilam
E negras manchas de terror, fingindo
O recorte das árvores extáticas."
(Excerto do Poema "Semelhança" de Teixeira de Pascoaes)
Um abraço e continuação de boa semana ;)
O livro é um espanto.
Gostei de recordar Teixeira de Pacoaes que há tanto tempo não relia.
Um beijo
Saudade. Sinto. Daqueles que nunca mais vou ver.
Bom texto
Always look at the bright side of life
adorei ler
jocas maradas
Nunca tinha visto Saudade dessa forma. Se calhar, nunca a soube explicar!
Obrigada! Hoje já aprendi a definir parte de um sentimento***
espantosa sinergia...
bjo.
obrigado.
tb pelo T.P.
...agradecendo a amável visita venho desejar um bom fds com um abraço
ora uma belíssima entrada para reflectirmos sobre a nossa bela e maltratada língua.Bjs e ;)
ora uma belíssima entrada para reflectirmos sobre a nossa bela e maltratada língua.Bjs e ;)
quem sabe, sabe!
outros limitam-se a explorá-la a torto e a direito... até ao ínfimo... erro!! LOL
Bom fds!
Boas recordações me trouxe este post. Saudade e Penedo da dita.
Abraço.
Obrigada pela visita. Volta sempre. Eu também vou voltando.
Bjs.
Passei para te desejar um bom fim de semana.
Beijos.
Ó Luís, que linda lição!!!
Um beijinho de obrigada pela lição e pelas visitas. Gosto muito dos teus comentários, que não simples sinal de presença. São mais do que isso. São uma verdadeira partilha dos assuntos, nomeadamente os africanos!
Ó Luís, que linda lição!!!
Um beijinho de obrigada pela lição e pelas visitas. Gosto muito dos teus comentários, que não simples sinal de presença. São mais do que isso. São uma verdadeira partilha dos assuntos, nomeadamente os africanos!
Peço desculpa, mas o último comentário que me deixaste foi apagado inadvertidamente. Se quiseres voltar, e comentar de novo agradeço, senão fica para outra oportunidade.
Bjs.
Obrigada.
Bjs.
Gosto tanto de ver estas edições mais antigas! São o máximo, não são?
Até breve!
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