Rumor de vida

“Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro.
Uma Lua quente de Verão entra pela varanda,
ilumina uma jarra de flores sobre a mesa.
Olho essa jarra, essas flores,
e escuto o indício de um rumor de vida,
o sinal obscuro de uma memória de origens.
No chão da velha casa a água da Lua fascina-me.
Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias,
das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos,
que me constrange e tranquiliza.”
Virgílio Ferreira
in “Aparição”

7 comments:
Sim, por vezes é tão doloroso vencer a dureza dos dias...
Belo.
A água da lua,.... gostei!
Vim agradecer a visita e a prenda :)
Uma boa semana....bjokas ":o)
Muito belo! Diria mesmo divinal! Se eu um dia escrevesse assim! Gostei de te visitar hoje, pela 1ª vez...
Também por vezes me costumo sentar numa sala que agora está vazia mas ainda há poucos anos era habitada pela minha mãe. Nesses momentos quase que a vejo ainda a falar ao meu lado, quase que a oiço chamar pelo meu nome. Mas o rumor da vida está apenas nas minhas recordações.
Beijos grandes.
Um poema amargo,mas verdadeiro,ao jeito que Virgílio Ferreira nos habituou.
É isso mesmo. Um sentir, na dureza dos dias, de hábitos e ideias que nos constrangem mas que, comodamente, também nos tranquilizam. A vontade de partir sem sair do mesmo lugar.
Beijinho e bom feriado.
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