terça-feira, novembro 08, 2005

O Trabalho I

Escrito por Khalil Gibran

“ Um trabalhador pediu : Fala-nos do trabalho.

- Trabalhais para seguir o ritmo e a alma da terra. Porque estar occioso é ficar indiferente às estações e afastar-se dos rituais da vida que caminha para o infinito.
Quando trabalhais sois como a flauta através da qual o murmúrio das hortas se transforma em música.
Quem de entre vós gostaria de ser cana, muda e silenciosa, quando tudo canta à sua volta ?
Sempre vos disseram que o trabalho é a pior das ocupações. Mas eu digo-vos : quando trabalhais cumpris uma parte do sonho mais longínquo da terra que vos foi atribuída quando o sonho nasceu.
E trabalhando com verdade amais a vida; e amar a vida através do trabalho é ser iniciado no mais íntimo segredo da vida.
No entanto, se no excesso da vossa dor amaldiçoais o trabalho, então digo-vos que apenas o suor da vossa fronte levará o que lá está escrito.

Disseram-vos também que a vida é sem sentido e na vossa fadiga repetis o que dizem os cansados.
Mas eu digo-vos que a vida só não tem sentido onde não há entusiasmo. E todo o entusiasmo é cego, menos onde há sabedoria. E todo o saber é vão, menos onde há trabalho. E todo o trabalho é vazio, menos onde há amor.

E o que é trabalhar com amor ?
É tecer o pano com fios tirados do vosso coração, como se o vosso bem amado tivesse de usar esse tecido; é construir uma casa com afecto, como se o vosso bem amado viesse morar nela; é semear o grão com ternura e recolher com alegria, como se o vosso bem amado viesse a comer os frutos; é deixar no vosso trabalho um sopro do vosso espírito sabendo que todos os outros estão junto de vós em vigília.

Algumas vezes vos ouvi dizer : Aquele que modela o mármore e encontra a forma da sua alma na pedra, é mais nobre que o lavrador.
E o que pega no arco-íris e o estende na tela, à semelhança do homem, é mais do que aquele que faz sandálias para os pés.

Eu digo-vos, não sonhando, mas bem acordado e à luz do dia, que o vento não fala mais docemente ao carvalho gigante do que à humilde erva.
E só é grande quem transforma a voz do vento em canto tornado mais doce pelo próprio amor.
Se não conseguirdes trabalhar com amor, mas apenas com aborrecimento, mais vale deixardes o trabalho e ficar sentados à porta do templo a pedir esmola dos que trabalham com alegria.
Porque se amaçardes o pão com indiferença será um pão que não matará a nossa fome. E se esmagardes as uvas com queixumes será o mesmo que misturar veneno ao vinho. É que ainda que canteis como anjos, se não amardes o canto fechareis os ouvidos do homem às vozes da noite.

1 comments:

Blogger ivamarle said...

ninguém é mais que outrém, todos temos um intimo que nos poderá glorificar ou destruir.Só depende de nós.Um abraço

quarta-feira, novembro 09, 2005 8:12:00 a.m.  

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