O Entusiasmo

Não raro pronunciamos as palavras sem conhecer a origem delas, apenas porque as aprendemos a usar com um determinado significado.
A expressão "entusiasmo" é uma delas. Origina-se do ídioma grego, tendo sido gerada para expressar " o encontro com o Deus que possuimos dentro de nós mesmos" (Teo em grego é Deus) e que "gera uma inspiração divina".
No tempo da antiga Grécia, a palavra representava a ideia sobre o estado de arrebatamento extraordinário daqueles que estavam sob "inspiração divina", como as "sibilas" - sacerdotisas que faziam previsões, consultando os oráculos.
Ou seja, uma espécie de prática de "transe" que levava a uma "exaltação" e que produzia a certeza de que alguém estivesse possuído pelo bem e pela verdade.
Platão (428 - 347 antes de Cristo), sobre essa concepção, afirmou que tal arte de adivinhar por transe não fazia conhecer coisa alguma e por isso não poderia ser considerada como um dom.
No Neoplatonismo a forma de entender mudou e Plotino (205 - 270 da era cristã) concebeu-o como um meio de alcançar o estado final da visão perfeita através do êxtase.
Seja como for, a origem da palavra tem a ver com o desejo do alcance de um estado especial, competente para conduzir a uma visão sobre algo além do comum e que pode ensejar uma directriz.
Muitos homens ilustres acreditaram em tais estados, como Dario I, o Grande (558 - 486 antes de Cristo), Alexandre Magno (356 - 323 antes de Cristo), e tantos outros; algumas predições chegaram a mudar até o rumo da história.
Alguns pensadores, como Giordano Bruno (1548 - 1600 da era cristã), consideraram o "entusiasmo" (que esse o denominou de "furor heróico") como a parte central da filosofia, porém, sob dois aspectos, um de natureza religiosa e outro de cunho "intelectual" ou "natural".
Aos poucos, todavia, as coisas foram-se modificando e John Locke (1632 - 1704 da era cristã), nos seus "Ensaios", já não considerou a matéria como revelação divina, nem como fruto da razão, mas sim, como uma mera "presunção de infalibilidade" (no que com ele concordaram outros pensadores como Leibniz).
Voltaire (1694 - 1778 da era cristã), dentro da sua forma irreverente de pensar, afirmou que o "entusiasmo" "é sobretudo a herança da devoção mal entendida".
Entendo contudo, como o moderno pensador alemão Karl Jaspers (1883 - 1969 da era cristã) que : "Na atitude entusiástica o homem se sente tocado na sua mais íntima substância, na sua essencialidade".
Admito o "entusiasmo" como uma convicção vigorosamente positiva, algo que deveras parte de dentro de nós como uma energia extraída do nosso íntimo e que nos leva a amar, a crer efusivamente no que sentimos ou observamos, com a capacidade, inclusive, de influenciar terceiros.
Tal manifestação, quando virtuosa, é sempre benéfica e contribui para o êxito na vida; quando, todavia, o for sobre algo vicioso, naturalmente, tenderá a resultar em mal e, portanto, prejudicará.
Não podemos negar que a busca da força interna para realizar algo ou obter o que se pretende é imprescindível para o sucesso mas, também é verdade, que algumas coisas, mesmo sem que as procuremos, quando sentidas ou observadas provocam uma euforia, uma atracção vigorosa.
O desapontamento, a desilusão, o arrefecimento, são pensamento opostos ao "entusiasmo" e conforme a situação, a circunstância em que ocorrem, podem ser altamente negativos à nossa existência e também à de terceiros.
O estado de alegria que nos traz a crença no que fazemos ou no que dizemos traz-nos felicidade.
Podemos até temporáriamente, ser vítimas de incompreensão ou de injustiças a respeito dos nossos actos, mas a disposição firme em crer vigorosamente, supre o mal estar que nos possa causar tais coisas.
Viver "entusiasticamente" é viver intensamente.
Como a felicidade é um estado a conquistar e que tem o sabor subjectivo da óptica de como cada um sente o "bem" ou o "mal" (assim o afirmou Renato Descartes, na sua obra de 1646, "As paixões da alma"), também a situação de "entusiasmo" pode ter diversos efeitos.
A mesma coisa que entusiasma uma pessoa pode não entusiasmar outra.
Não é o facto, mas a condição interna de conviver com o mesmo, pode ditar o estado de espírito.
Podemos demonstrar "eloquência" externamente e não possuirmos "entusiasmo" internamente, porém tende a ser eloquente quem se entusiasma.
A sinceridade para connosco, para com terceiros, depende da associação desses estados, ou seja, de fazer coincidir o que externamos com aquilo que intimamente sentimos.
Se todos pudessem compreender o quanto representa para o sucesso na vida o estado de espírito impregnado de "entusiasmo" certamente nunca deixariam de buscar possuí-lo.
Não basta crer, não basta amar, é preciso que o façamos efusivamente, com o uso de toda a energia que nos foi doada e concedida para ser utilizada em nosso favor e naquele e outras pessoas.
(Texto integral do Prof. Doutor António Lopes e Sá - Presidente da Academia Brasileira de Ciências Contábeis, e publicado numa revista da especialidade, em Portugal - Fev.2003)
Esta é uma mensagem que sinto pertinente e especialmente adequada, para dar energia àquilo que venha a escrever neste espaço.
Acreditar efusivamente naquilo que sentimos e observamos, sabendo que através do entusiasmo das palavras, podemos influenciar terceiros.
Para melhor, que desejávelmente é possível.

4 comments:
bonita mensagem esta, sobre o entusiasmo. devia guiar-nos durante toda a vida, mas por esta ou aquela razão, esquecemo-nos e a vida perde parte do seu significado.
entusiasmemo-nos, sempre.
bonitas palavras estas, pareces-me alguém muito erudito, mas sem frieza; adoro Khalil e as palavras que escolheste dele são muito apropriadas ao momento que estou a passar; obrigada por me teres brindado com elas, e se não te importas farei um post com aquele texto.
Gostei do texto e tenho a certeza de que não vai faltar-te entusiasmo para continuares.
Comecei pela Porta do Cavalo para depois agradecer a visita e o simpático comentário. Mas, agradada, decidi continuar a ler.
É mesmo assim este deambular bloguístico. É mesmo assim este Entusiasmo que nos leva a conhecer outros textos e as pessoas que os escrevem. E aqui tinha mesmo de comentar. Para te agradecer estes momentos de tão agradável leitura e o entusiasmo que é, para mim, um dos sentimentos mais importantes e preciosos do nosso viver. Falo por experiência própria porque todos os dias procuro fortalecê-lo.
Um beijo doce e até breve.
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